Imerso no Alentejo
Se este ano foi, por força das circunstâncias, o ano para (re)descobrir Portugal, não faltam efectivamente locais para o fazer, de norte a sul e ilhas, sozinho, a dois ou em família.
Com poucos dias de férias para usufruir e guiado pela necessidade de pura paz e sossego, o caminho levou-me ao 'coração' do Alqueva, com Monsaraz literalmente no horizonte: ali, numa encosta de montado com vista infinita para o grande lago, fica o Montimerso Skyscape Countryhouse, um turismo rural que deslumbra precisamente por não se fazer notar na paisagem...!
O empreendimento de 11 quartos, quatro suites (cada uma com um pequeno tanque privativo) e dois apartamentos, todos com acesso a partir do exterior, abriu em Junho... devagarinho...!
Pintado de branco e em estilo minimalista, possui dois corpos distintos, um virado a nascente e ao Alqueva, outro a norte e à vila de Monsaraz, encavalitada no monte, à distância.
As duas alas desenvolvem-se a partir de um corpo principal (outrora existiu ali um armazém agrícola da herdade), onde se situam os espaços comuns e o restaurante Skyscape, com a sua magnífica varanda aberta à paisagem.
Propositadamente afastada mas à distância de um olhar, mais acima na encosta, fica a piscina infinita, qual oásis refrescante e imperdível, em especial nos dias de sol inclemente mas também em noites quentes.
Henrique Farinha, o proprietário - e alma do Montimerso, em conjunto com a sua mulher Catarina Roseta - guiou-me por uma breve visita à propriedade, da sala comum (com uma enorme lareira, pensada para dias mais frios e para a conversa entre hóspedes), passando pelo 'honesty bar', conceito em que cada um se serve e aponta o consumo realizado.
No exterior, Henrique destaca o pátio central com espaço para uma fogueira ao ar livre e assinala a perfeita inserção do turismo rural na propriedade de 55 hectares - "nem sequer se vê da estrada" que liga Reguengos a Mourão, realça - ou a ausência de relva, já que a opção passou pela manutenção integral do montado de azinho, imagem de marca do Alentejo interior.
A construção foi pensada numa lógica de sustentabilidade e eficiência energética, desde o reaproveitamento das águas da chuva, passando pelo recurso à energia solar, até à iluminação quanto basta. O ar condicionado desliga-se mal entramos no quarto (e, valha a verdade, não sentimos necessidade de o voltar a ligar), pela casa de banho entra luz natural e se é possível ter televisão no quarto a pedido, ninguém sentiu falta dela.
E se não há como ficar indiferente ao silêncio, de dia ou de noite, o mesmo se aplica ao cheiro da terra e do poejo que nos acompanha a cada passo, sobrando fragâncias a menta e hortelã.
Outra das características que muito me agradou no Montimerso foi, precisamente, o seu carácter não intrusivo. Se não o é na paisagem circundante, é-o ainda menos na própria ambiência do turismo rural e na relação para com os clientes do seu simpático e ultra disponível staff, ainda que mal se dê por ele.
Henrique pretende que os seus colaboradores tratem os hóspedes pelo nome e esta vontade transparece nos pormenores, como o cartão personalizado que nos aguarda quando entramos pela primeira vez no quarto. E depois há outros 'mimos', como a bicicleta - que não cheguei a utilizar - estacionada à porta, a convidar a um passeio encosta acima e abaixo, pelos terrenos da herdade, até ao Alqueva.
Em breves conversas, ficámos a saber que a Beatriz - que nos recebeu à chegada, com um sorriso e explicações pausadas e claras sobre as regras a observar face à pandemia do novo coronavírus - é originária da Ericeira e entende as necessidades de quem pretendeu fugir, por uns dias, à confusão do litoral e às especificidades climatéricas da costa atlântica!
E a Sara - regressada às origens, numa aldeia das redondezas, mesmo se admite saudades da Lisboa por onde andou - tanto nos serve o pequeno-almoço ou a refeição ligeira que faz as vezes de almoço, como traça uma estratégia para limitar o desconforto de quem se assusta por se confrontar com uma abelha na varanda.
As noites de lua quase cheia privaram-me, porém, da plena descoberta de um dos cartazes turísticos da região, a observação do céu nocturno, ou não estivessemos em plena Reserva Dark Sky Alqueva. Com luz a mais no céu claro, ficou adiada a experiência de o fotografar convenientemente, previamente inspirado pelas magníficas imagens de Miguel Claro, astrofotógrafo oficial do projecto Dark Sky Alqueva.
Impõe-se, portanto, regressar. Seguindo o conselho de Henrique, talvez na Primavera, quando o montado se apresenta colorido e florido. Mas seja em que estação for, definitivamente em dias de lua nova, para ser possível observar o céu negro em todo o seu esplendor.
Para quem tem a felicidade de conhecer tantos e diversos estabelecimentos hoteleiros pelo país, nunca senti a perfeição tão perto num único lugar, quando o que almejamos é o descanso absoluto. Fiquei fã do Montimerso e aqui me confesso como tal.
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